Pré-ENE discute contribuições para um projeto classista e democrático de educação

Docentes e estudantes apresentaram contribuições para um projeto classista e democrático para a educação brasileira no último sábado, 31, durante o Pré-ENE, que a ADUFPA promoveu na Casa do Professor. O evento, que contou com mesas de debates e grupos de trabalho, foi uma preparação ao III Encontro Nacional de Educação (ENE), que vai ocorrer de 12 a 14 de abril, em Brasília.

A primeira mesa de debates contou com a participação da professora doutora Vera Jacob, que analisou os impactos das políticas de austeridade fiscal no financiamento da educação superior. Segundo Vera Jacob, somente 1,14% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e apenas 4% das despesas da União são aplicados na educação.

Em sua análise, Vera Jacob criticou programas como o Fies e o Prouni, que de acordo com a docente, beneficiam o mercado em detrimento da educação pública. “43% dos parcos recursos da educação estão indo para o Fies e Prouni. Ou seja, é uma verba que poderia estar sendo investida para melhorar a educação superior, mas está sendo usada para financiar grupos empresariais”, apontou Vera Jacob.

A segunda mesa de debates do evento abordou a educação e as relações étnico-raciais, de gênero e da diversidade, com a professora doutora Lúcia Isabel Silva. Ela analisou como mulheres e negros são impactados por esse cenário de austeridade fiscal e apresentou dados que comprovam o agravamento da desigualdade de gênero e raça após a aprovação da Emenda Constitucional 95.

Lúcia Isabel defendeu a política de cotas e destacou a necessidade da luta pela manutenção e ampliação das ações afirmativas, ameaçadas pelo governo Bolsonaro. “Apesar da política de cotas, ainda existe um crescimento muito lento no acesso de negros e negras à educação superior, e se seguirmos assim, somente em 2089 poderemos ter uma igualdade entre brancos e negros no acesso às universidades”, ponderou.

O Pré-ENE teve ainda uma mesa de debates sobre formação e trabalho docente, com as professoras doutoras Olgaíses Maués e Rosimê Meguins. Em sua exposição, Olgaíses criticou o projeto do capital para a educação e o crescimento da extrema-direita no mundo, que segundo ela, se estrutura em quatro pilares: o ultraliberalismo, o anticomunismo, o fundamentalismo religioso e o neoconservadorismo.

A docente defendeu uma formação crítica para os professores baseada em um projeto de educação emancipador. “Precisamos organizar a nossa resistência e uma das ferramentas para isso é a educação, junto com movimentos sociais, sindicatos ou partidos, para que possamos construir um projeto emancipatório de sociedade”, destacou Olgaíses Maués.

Em sua apresentação, a professora doutora Rosimê Meguins fez críticas ao projeto Escola Sem Partido e analisou como as políticas neoliberais alteram o ethos acadêmico e a subjetividade dos trabalhadores, em especial de docentes.

Segundo Rosimê Meguins, o neoliberalismo envolve o docente em um processo de trabalho estafante, que o isola e o torna cada vez mais competitivo em busca da sobrevivência. “Passamos a ser tratados como empresas, em que precisamos produzir, competir e disputar mercado. O neoliberalismo impõe seu objetivo, como se fosse um desejo individual próprio, quando na verdade é um desejo do mercado e do capital”, explicou Rosimê.

A parte da tarde do Pré-ENE foi reservada para a discussão em grupos de trabalho sobre os eixos temáticos do III ENE, sistematização das contribuições dos debates feitos no evento e definição da delegação paraense que vai participar do Encontro Nacional nos dias 12, 13 e 14 de abril, em Brasília.