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LULA versus LULA
03/05/2010

Glória Pires na entrevista sobre o filme: “Lula, filho do Brasil”, afirma que o filme não é sobre o Presidente Lula, mas sobre o cidadão Lula ou sobre o filho da Dona Lindu. Podemos tomar sua afirmação com ponto de partida de reflexão a respeito da imagem que está sendo revelada de personalidade e o modo como vem exercendo a presidência.

Ainda não tive a oportunidade de assistir ao filme mencionado, mas, baseado na entrevista da atriz e em comentários de críticos e pessoas idôneas, trata-se de um filme de categoria, o que não exclui possibilidade de se transformar num instrumento eficaz de campanha eleitoral. Afinal exibe a vida de um homem que fora muito pobre, de vida sofrida, a ponto de, como ele mesmo afirma, vivenciar a dor da fome e, apesar de tudo, conseguiu se tornar Presidente da República, mantendo um índice alto de aceitação popular.

A vida do cidadão Lula merece admiração e reconhecimento pela sua trajetória. Compensou sua carência acadêmica; descobriu sua capacidade de liderança; fundou o Partido dos Trabalhadores; enfrentou a ditadura militar, foi derrotado três vezes, como candidato à presidência da república, apesar disso se tornou presidente. Na verdade, ao longo de sua vida pública revelou caráter destemido, persistente e carismático.

Não fez curso acadêmico, porém sua práxis política lhe conferiu certo grau de conhecimento, mesmo atropelando o vernáculo, conseguiu se comunicar e se fazer respeitar improvisando ou discursando em congressos e conferência da ONU. Sua liderança foi se impondo de forma natural por revelar sensibilidade às carências do pobre ou miserável.

Revelou espírito de líder desde jovem, porém se firmou no ABC paulista, onde influenciou a primeira greve deflagrada pelos empregados da Scania após a edição do AI-5, em 1968, depois como presidente do Sindicado dos Metalúrgicos liderou uma greve, no ABC, congregando 160 mil operários o que o consagrou “o líder sindical de maior projeção no país”. Foi preso e sua fama de líder se propagou em outros países.

Soube lidar com o regime militar, como sindicalista, reivindicando salários e outras coisas, entretanto não foi considerado ameaça para o novo regime. Os militares chegaram até a considerá-lo como “ingênuo e despolitizado”. Depois da greve no ABC paulista, “o barbudo de língua presa”, “já um gigante”, passou a incomodar o SNI, que o colocou sob vigilâncias, até sua família era vigiada, mas isto não o intimidou. Como Presidente, manteve o serviço secreto sob a sigla ABIN, nomeando um general.

Com o êxito dessa greve, do ponto de vista de liderança, Lula pareceu ter consciência de sua força política e assim passou de um líder de sindicato para um líder político. Começou a farejar o gostinho do poder. Sua tática política foi no sentido de não confrontar seus adversários, mas tentar acordos ou “diálogos”. Diante dos escândalos (Mensalão e corrupções) fazia vista grossa ou seguia o princípio: o fim justifica os meios, haja vista o testemunho recente do J. Dirceu: ”Mensalão para mim não é corrupção, é financiamento de campanha caixa 2” , como se a ética política fosse anti-ética.

Henri Bergson afirma que temos dois eus. Um substancial e outro simbólico. O primeiro se constrói mediante o desempenho do segundo, ou seja, das funções ou papéis que exercemos na vida privada, pública ou social. Entretanto, o eu substancial só se identifica, quando reflete sobre suas experiências em casa, nos cargos ou funções que ocupa, do contrário, pode substituir o eu substancial pelo eu simbólico. Infelizmente, os indivíduos não são respeitados enquanto pessoas, mas de acordo com os títulos que lhes são atribuídos, como de pai, professor, presidente, etc.

Há poucos dias, Dilma no discurso falou sobre “herança bendita”, referindo-se ao sistema econômico atual do governo. Na verdade essa herança não é do governo Lula, mas de Fernando Henrique. Existe, sim, uma herança, mas maldita encoberta pelo poder econômico, pois a corrupção se alastrou de modo a oficializar a mentira por verdade. A proposta do Lula de erradicar a pobreza e ampliar a distribuição de renda, certamente será mais fácil se houver vontade política, porém erradicar a corrupção oficilializada pelo seu governo só será possível mediante processo educativo de longo prazo, de gerações e gerações à luz da razão.

Portanto, Lula optou consciente ou inconsciente pelo eu simbólico. Às vezes, a força do poder é tão sedutora que não permite reflexões a despeito de posturas anteriores. Vale curtir e tirar proveito das benesses dos poderosos. Com o alto índice de aprovação popular e o apoio internacional.

Lula afirmou, há poucos dias, que se tivesse vencido as eleições em 1989, podia ter se tornado ditador ou cairia no dia seguinte, tal era sua convicção de líder. Mas amadureceu, e eleito presidente, percebeu que governando com o beneplácito do povo seria mais seguro e daria asas à imaginação, ao espírito de grandeza e poderia compensar às privações do tempo de crianças, como no momento o faz, propondo construção de superestatais.  

Enquanto a cultura não despertar a nossa consciência para os valores éticos, tendo em vista o respeito mútuo, independente de cargo ou função, o poder econômico continuará alimentando muitas ilusões, enquanto a Ética, na práxis, propiciará a descoberta da vida como valor real.  Portanto, o Lula continua sendo filho de uma colônia e não de um país (Brasil).

Armando Avellar

ar.avellar@uol.com.br

Fonte: ADUFPA