Ser professor nas universidades federais tornou-se um desafio perigoso em virtude da atual conjuntura brasileira e internacional de supervalorização da produção acadêmica. Para ter reconhecimento profissional e avançar na carreira, é obrigado a se sujeitar às piores rotinas de trabalho e assim complementar os seus rendimentos financeiros. O prof. Dr. João dos Reis Silva Júnior, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), participou de mais um debate promovido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação Superior (GEPES/UFPA) no dia 26 de março. Durante a palestra “Trabalho Intensificado nas Federais: A outra face do Sequestro do Fundo Público pelo Capital”, o professor João dos Reis revelou as graves conseqüências advindas desta realidade que afeta de forma extremamente negativa a vida profissional e até pessoal dos professores. A ADUFPA fez uma entrevista exclusiva com o pesquisador. Leia mais:
Como as universidades chegaram a esta rotina de trabalho tão intensa?
Eu diria que o trabalho teve a sua intensificação, a sua precarização e sua extensificação. O que eu chamo de extensificação: ao contrário do trabalho material, o nosso trabalho é imaterial e carregamos o nosso trabalho para casa. Nós trabalhamos à noite, no sábado, no domingo e nós não temos o ponto de parada em que o trabalho é ainda saudável. Passamos dele por nossa própria vontade. Esse fenômeno que compõe estas três dimensões não é, infelizmente, um privilégio da esfera da educação e particularmente da educação superior e menos do subsistema das federais. Ele é uma coisa que aconteceu com todo o trabalho e no mundo todo. Muito se estudou sobre a intensificação a precarização e a extensificação do trabalho. E muito se sabe a respeito com consistência. Uma das pessoas que mais sabe, que puxa as pesquisas, orienta e milita nesta temática é o Ricardo Antunes, especialmente. De outra parte, essas pesquisas são datadas obviamente e não conversaram muito com a sociologia política. Se tivessem conversado no âmbito do curso das duas últimas décadas, talvez conseguissem formular a questão, sobre a qual eu falo agora, que é a intensificação, a precarização e a extensificação do trabalho da outra face do sequestro do fundo público executado pelo capital e possível em face da reforma do estado. Pra mim, esta questão central que dá unidade, mais do que unidade, a dois presidentes da República: Fernando Henrique Cardoso e Lula. Eu diria que o Fernando conseguiu montar as instituições republicanas para uma grande reforma estrutural no Brasil com o início da reforma do estado brasileiro em 1995. É possível compreender então a questão ligada ao trabalho se compreendemos isso e vice e versa. O que a reforma do estado brasileiro possibilitou? Como se chega primeiro à reforma do estado? Nunca tivemos, de fato, um estado de bem-estar social no Brasil, mas tivemos um estado de mal-estar no Brasil, como diria Chico de Oliveira, mas mesmo para os países de economia central, nós sempre tivemos um estado de bem-estar genuíno, original em que as políticas econômicas e produtivas eram universais e as políticas para o social, onde aí se encontram a previdência, os direitos do trabalho, a educação, também eram políticas universais, que financiava tanto as políticas produtivas como as sociais um determinado fundo público, até que ele fica muito restrito. E nós temos a reforma que chamamos de neoliberalismo e ele segue os mesmos princípios do neoliberalismo das economias centrais. No Brasil, nós temos pegamos as coisas a La Macunaína, ou seja, o que nós passamos a ter com a ampliação de um dos setores do estado, que é o setor de serviços não exclusivos ou competitivos, é a inclusão de todas as atividades sociais neste setor, inclusive a educação e, especialmente, a superior.
E com isso nós produzimos esta cultura de supervalorização da produção acadêmica e científica dentro da universidade...
Com esta questão, as políticas de bem-estar para todos os trabalhadores, inclusive para professores da educação superior, deixam de acontecer. Cria-se uma comissão para se intensificar o trabalho dos professores, especialmente para os professores pequisadores em nome de uma certa produtividade e de uma necessidade economico-social para o Brasil. Temos um novo paradigma político que são políticas universais para as políticas produtivas ligadas ao capital e portanto financiadas pelo fundo público e, para que o trabalhador continuasse a sobreviver como vivia antes, ele tem de intensificar o seu trabalho, senão ele não vai ter o mesmo poder aquisitivo quando o estado entrava com as políticas de bem-estar social para lhe prover transporte, saúde e educação, seguridade social, seguro-desemprego. Isso vai acontecer nas universidades públicas principalmente, mediadas por duas instituições do estado: o CNPQ e a Capes. O CNPQ, por meio dos editais de pesquisa e por meio das famosas bolsas de produtividade, induz a um tipo de pesquisa de resultados imediatos que agregam valor ao capital. As pesquisas, na sua grande maioria desenvolvidas nas universidades, são pesquisas voltadas para o setor produtivo, que buscam aumentar a produtividade do capital. E como o salário do professor está reduzido, ele é obrigado para a sua necessária sobrevivência a aderir a esse novo modelo. Ele tem de dar conta de todas as atividades que já vinha dando na universidade, além disto fazer trabalhos extras como consultoria, dois, três projetos de pesquisa, formar cada vez mais mestrandos e doutorandos e isso intensifica o trabalho. A precarização se dá quando todos os direitos sociais do trabalho do professor pesquisador desaparecem quando ele faz uso da parceria com o público-privado, da Lei de Inovação Tecnológica e assim por diante. No âmbito da universidade é a Capes que mais interfere porque com o seu modelo de avaliação, ela obriga o professor pesquisador, se quiser fazer parte da pós-graduação, a aderir a esses editais.
Há conivência do professor com esta realidade? Qual a razão do profissional da educação acabar aderindo a este modelo de trabalho? Ele realmente poderia ter uma atitude diferente?
Existem vários segmentos dentro da universidade dentro desta questão. Primeiro aqueles que estão dentro do âmbito do produtivismo acadêmico, que estão arrebentando com a sua vida privada, perdendo família, se estressando, sofrendo, adoecendo, se tornando individualistas, competitivos e assim por diante. Existe uma faixa pequena que usufrui disto. Existe outro grupo de professores que não usufrui, apoia este modelo e fica no vácuo desses professores para quem sabe ocupar o lugar deles. Existem aqueles outros que criticam este modelo e são desqualificados, dizendo que são improdutivos, desqualificados e incompetentes. Há outros que apóiam o modelo, no entanto não conseguem entrar na pós-graduação e não conseguem editais. Existe também a questão da vaidade. Ela pode ser positiva ou negativa. Ela é humana e não larga da gente. A vaidade positiva nos faz ir a determinado ponto. A vaidade negativa passa deste ponto e faz mal para nós e semeia um clima de guerra, concorrência e competitividade nos programas de pós-graduação, nas instituições e nas próprias associações científicas, principalmente na Comissão de Avaliação da Capes.
Qual será o futuro das universidades?
Como eu sou otimista, acredito nas soluções para uma mudança da universidade que retome a sua identidade, para que faça o seu papel de sedimentar e consolidar o pacto social e ao mesmo tempo promover e produzir o conhecimento. Que ela volte e resgate o quórum crítico da sua identidade, critique o seu tempo histórico e, sobretudo, criticar a si mesmo, os seus próprios objetivos. Eu sou otimista que nós conseguiremos fazer isso.