ADUFPA - Políticas do MEC adoecem os docentes

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Publicado em 13/05/2014

Políticas do MEC adoecem os docentes

Mais de 14% dos pedidos de afastamento do trabalho feitos por docentes da Universidade Federal do Pará (UFPA), entre 2006 e 2010, foram motivados por problemas com a saúde mental, provavelmente causados pelos mecanismos de controle e avaliação da produção acadêmica. A constatação está em uma recente pesquisa de mestrado, intitulada “Trabalho Docente e Saúde: Tensões da Educação Superior”, do professor e pesquisador, o médico Jadir Campos, ex coordenador de Saúde do Trabalhador da UFPA, mestre na área médica e em educação e doutorando em Saúde do Trabalhador na Universidad Internacional Tres Fronteras, de Buenos Aires (Argentina). Para ele, o problema é muito maior. “Detectamos tão somente a ponta do iceberg”, destacou o professor, que classifica a situação como preocupante, sobretudo porque o quadro da UFPA se repete em todas as Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes) brasileiras. Ele atribui o problema às políticas equivocadas para Educação Superior implantadas e implementadas pelo Ministério da Educação (MEC), com grande repercussão sobre o trabalho docente.

A pesquisa analisa de que forma as políticas criadas pelo governo federal para a educação superior comprometem o trabalho docente. O levantamento foi feito no setor de Perícias Médicas da Pró-Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoal (Progep) da UFPA, a partir do contingente de professores que procuraram o serviço para pedir afastamento do trabalho, por doenças classificadas no Código Internacional de Doença (CID).

“Essas políticas apontam para a precarização do trabalho do professor universitário, evidenciada pela desvalorização da imagem, baixos salários, intensidade de exposição a agentes de risco, carência de recursos materiais e humanos, individualidade em detrimento da coletividade, aumento do ritmo e intensidade
do trabalho. Capazes de criar situações que configuram fatores psicossociais do trabalho e podem gerar sobrecargas físicas e mentais, e, com estas pode advir sofrimento e/ou adoecimento mental”, explicou.

A pesquisa aponta o produtivismo e a competitividade, estimulados sobretudo pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), como as causas do adoecimento mental entre professores da UFPA, constrangidos a desenvolver suas próprias condições de trabalho, combinando “competição”, “empreendedorismo” e “voluntarismo”, ante a privatização
dos meios de produção do trabalho docente.

MOBILIZAÇÃO

“Nesse ambiente de intensa competitividade, torna-se difícil a produção de uma identidade que se dê pela percepção de que é preciso organização e mobilização para mudança desse sistema, que deita raízes em práticas e valores individualistas, cuja racionalidade se expressa na diferença entre ser produtivo e improdutivo. E o resultado dessa dinâmica traz consequências comuns ao mundo do trabalho, tais como o sofrimento, o adoecimento em geral, as doenças psicossomáticas, o estresse, o estado permanente de cansaço, a depressão, a síndrome de Burnout e até o suicídio”, diagnosticou o pesquisador.

Uma outra constatação é que os professores muitas vezes não percebem a causa de seu adoecimento mental, porque as circunstâncias em que escolhem o produtivismo são historicamente determinadas, o que deveria desmistificar tal escolha como “espontânea”. Em grande medida, a produtividade (recompensada monetária e simbolicamente) funciona como algo que causa no docente a sensação de “genialidade”, quando tem seus projetos aprovados, e todo o “mérito” que isto envolve é como se estivesse sob efeito de uma “droga”. Um neurotransmissor, uma endorfina. Entretanto, isso representa a perda da autonomia intelectual, a perda do controle sobre o processo de trabalho, a forma atual da submissão do trabalho intelectual à lógica do Capital. 

Jadir Campos também aponta que a Síndrome de Burnout e a depressão são as formas mais comuns de adoecimento mental entre docentes. Causada pelo produtivismo acadêmico, a depressão já é a segunda doença que mais afasta trabalhadores de suas atividades no mundo, após a LER-DORT, que é da ordem de 7,2%, quase metade do índice de adoecimento mental levantado pela pesquisa. As características da Síndrome de Burnout são: exaustão emocional; falta de envolvimento com o trabalho, perda do interesse e do entusiasmo; e desumanização. “A desumanização se expressa naquele professor que é questionado pelo aluno e responde com pedras na mão e não deixa ninguém sequer intervir, adotando posturas autoritárias com falas como ‘Aqui o professor sou eu, fique calado’, ou adota posturas similares quando abordado pelas demais pessoas”, alegou Campos.

SOLUÇÕES

Para prevenir as doenças mentais, o professor sugere o combate às atuais formas de controle da produção acadêmica, pautada  principalmente pelo quantitativismo e produtivismo baseados em escores de produção acadêmica muitas vezes sem valor científico. Ainda segundo o pesquisador, é necessário reconhecer que o governo federal, por meio do Ministério do Planejamento Gestão Orçamento, implantou uma Política de Estado para a Novo código vai desburocratizar ciência, tecnologia e inovação no País saúde do trabalhador. A Instituição, tendo à frente a gestão atual por meio da Pró- Reitoria de Gestão e Desenvolvimento de Pessoal (Progep), aderiu e implantou o Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (Siass), que dentre várias ações monitora a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), a partir da Comissão Interna no Serviço para a Saúde do Trabalhador (CISST). Entre outras ações, monitora as relações sócioprofissionais no trabalho, com intuito de prevenir o aparecimento de doenças mentais. “Eu e a professora Elen Carvalho elaboramos um Projeto sobre Qualidade de Vida no Trabalho para a Progep, mas há necessidade de pesquisarmos se há correlação da Precarização do Trabalho Docente do Ensino Superior com adoecimento mental. Isso eu estou construindo por meio de minha tese para Doutorado em Saúde do Trabalhador”, informou.

Segundo a Coordenadoria de Vigilância à Saúde do Servidor da Progep, em 2013, dos 2.520 professores da UFPA, 30 se afastaram por agravos à saúde mental (episódicos ou recorrentes), o equivalente a 1,19% do total de docentes da instituição. Desde de 2010, a universidade passou a contar com diversos programas e projetos voltados para a saúde e a qualidade de vida do servidor. Houve a contratação de profissionais de várias áreas para integrar as unidades técnicas do Siass; a renovação do convênio com o Hospital de Clínicas Fundação Gaspar Viana, para o atendimento dos usuários do Programa de Atendimento Psicossocial do Servidor, que inclui consultas terapêuticas individuais, de casal, de grupo ou familiar, atendimento psicológico e/ou psiquiátrico, oficinas de relações interpessoais, capacitações e rodas de conversa; e a contratação de laboratórios particulares, através de licitação, para exames periódicos dos servidores.

 

(O Liberal, Atualidades, A6, em 12 de maio de 2014)

 

Clique aqui e confira a entrevista feita pela Assessoria de Comunicação da Adufpa, publicada no jornal impresso da entidade no mês de abril de 2014)